sábado, 9 de julho de 2016

se fosse gente
e usasse os talheres
adequadamente
(no ventre das coisas)

se não sujasse
os meses das moças ...
com seus anos

era só mais um no ralo dos dias

mas não é gente
é a febre
e a paz depois da febre

sexta-feira, 8 de julho de 2016

orientações sobre contar estórias

escolha um dia da semana com tráfego intenso e luz natural
esteja em sua casa. marlon brando dizia "o duque em seus domínios" sobre outra coisa, mas está valendo
não vá sentar na cama ou sofá, forre o chão e fique frente a frente com o ouvinte que deve estar à vontade mas não muito....
ele está ali e será preso pelas garras da estória, não pode ir longe nem sair ileso, como poderia estar à vontade?
sem toques
um corpo não encontra outro corpo em nenhuma hipótese, a estória encontra o corpo, o corpo encontra a estória
o único momento em que pode existir o toque, é quando quem conta retira o relógio do pulso de quem ouve. é preciso cuidado. o único tempo permitido é dos acontecimentos e o do escurecer. à coluna também é permitido marcar o tempo usando a dor
o relógio que anda para trás, presente da viagem ao uruguai, pode ser usado para confundir
o batom não
o batom é obrigatório mas não como distrator. ele organiza as bocas, a boca que conta a estória precisa ter os lábios cor de rosa antigo
(passe o batom com a ponta dos dedos)
braços e colo precisam estar descobertos, parte da estória será contada por eles
quem ouve precisa perguntar, inclusive com os olhos e objetos. quando o ouvinte desliza a mão sobre algum objeto, persiga o gesto, entre no jogo
a narradora inventa o que quiser. os móveis não saem do lugar quando escutam uma mentira. lustres reviram os olhos mas é só isso.
é importante que, no meio das mentiras, se conte um segredo jamais revelado. quem escuta nunca saberá qual o segredo, mas o alívio de quem conta abre os ossos da bacia, eriça os cabelos, faz ondas no corpo
ali a voz fica mais suave
está proibido sussurrar ou rir com o canto da boca
pode ter chá, nunca pode ter café
olhar nos olhos é permitido desde que com juramento prévio de que será apenas olhar nos olhos e depois olhar nos olhos
em casa, com os olhos, ouvidos e boca em movimento, o tempo como testemunha, a cidade como fuga, os papéis como desculpa


escuta
o que o desejo despista
com palavras

segunda-feira, 4 de julho de 2016

certas coisas do desejo
vêm ao mundo
em panelas de ferro
que não deixam
esfriar

tempero que leva tempo
e apura já na boca
perto do fim

gosto
sem
quem o acompanhe

segunda-feira, 27 de junho de 2016


poemas meus 9

as palavras
elas 
estão ensaiando.
calma.
as palavras estão
tentando 
um jeito novo 
de dizer você 
sem que eu 
me parta 
em mil.
todas as mãos no bolso são as suas mãos
todos os nãos são os seus: em leque, em flor, e se abrem para mim feito um mostruário
todos os dias são os dias em que você não está
de noite todos os fantasmas colocam uma máscara do seu rosto e me fazem dormir. logo, meu monstruário também é você. 
sua nuca é todas as nucas da rua. 
todo pão é aquele não comido por sua boca. 
todo pesar é meu por não cuidar da raiz que te alimenta
na fila do hospital, todos os doentes são você na desesperança e não são você nos detalhes.
toda gaze suja é seu sangue ralo
toda gaza seu paraíso particular

vem ver
todo portal que não te vê passar
toda tramela que não se vira ao movimento do seu corpo
todo meio fio que não te contém
a calha que não te escorre o galho que não verga
ao tentar seu sustento

calma, isto não pretende ser amor
só palavra

domingo, 26 de junho de 2016


o homem de fechar vestidos

o homem toca as costas da mulher ao menor sinal de cotovelos dobrados e
tecidos desunidos
lá vai a 
mão hábil
o mal hábil
homem lábil
em pelo menos uma janela de cada hotel há um homem a fechar vestidos
com a audácia de deixar um botão
com a certeza de ser útil 
com vontade de lutar contra o zíper ou reagir ao amanhecer que expulsa a mulher
com a beleza de ser totalmente dispensável para o ato de fechar vestidos