terça-feira, 26 de julho de 2016

quando alguém fala contigo
usando uma língua
que não é a sua
o corpo é quem responde
as mãos fazem as perguntas
sobre como deve ser a chuva naquele país
como se o país estivesse ali
nos sulcos da velha pele
na cintura todos os combates
e covardias
nas orelhas o futuro em forma de gritos infantis (pulos n'água, rayuelas)
entre os dedos do pé as tragédias que uma bota esconde, uma sola,
então solo firme a guardar o que não pode ser enterrado
nas pálpebras o caminho de árvores da primeira rua de sua vida
cosmos era o nome daquela flor amarela
a voz que vem da língua bolina um mapa, o que deve evitar a deriva
mas nas mãos do viajante estão prontos para zarpar dois compatriotas:
o amor e a dúvida

segunda-feira, 25 de julho de 2016

a literatura é toda a água em torno, apenas parte da boca nariz olhos a respirar e conseguir fôlego. o fôlego são todas as outras coisas do dia, as que evitam que a literatura tome todo o corpo. não seria má ideia, se fosse possível regressar.

terça-feira, 19 de julho de 2016

quinta-feira, 14 de julho de 2016

experimenta quebrar um dente
e passear a língua pelo buraco, rente
o que ela sente, enorme cratera
é cesura apenas
tímida fenda

não é que seja mentira da língua
a língua nunca mente
cava algo no oco
procura
retorna inútil e se deita
decidida a esquecer

ao voltar, pouco depois
descobre que deve guardar o vão
imaginar grandes terras
onde nada existe
tender ao sólido como salvação

a língua pensa que o dente é um continente

domingo, 10 de julho de 2016

do duvidar

é simples a feitura deste poema.
descanso o caderno no colo,
solto os cabelos
e fecho os olhos.
escrevo suas últimas palavras
com minha voz:
ainda não fazem sentido

sábado, 9 de julho de 2016

se fosse gente
e usasse os talheres
adequadamente
(no ventre das coisas)

se não sujasse
os meses das moças ...
com seus anos

era só mais um no ralo dos dias

mas não é gente
é a febre
e a paz depois da febre

sexta-feira, 8 de julho de 2016

orientações sobre contar estórias

escolha um dia da semana com tráfego intenso e luz natural
esteja em sua casa. marlon brando dizia "o duque em seus domínios" sobre outra coisa, mas está valendo
não vá sentar na cama ou sofá, forre o chão e fique frente a frente com o ouvinte que deve estar à vontade mas não muito....
ele está ali e será preso pelas garras da estória, não pode ir longe nem sair ileso, como poderia estar à vontade?
sem toques
um corpo não encontra outro corpo em nenhuma hipótese, a estória encontra o corpo, o corpo encontra a estória
o único momento em que pode existir o toque, é quando quem conta retira o relógio do pulso de quem ouve. é preciso cuidado. o único tempo permitido é dos acontecimentos e o do escurecer. à coluna também é permitido marcar o tempo usando a dor
o relógio que anda para trás, presente da viagem ao uruguai, pode ser usado para confundir
o batom não
o batom é obrigatório mas não como distrator. ele organiza as bocas, a boca que conta a estória precisa ter os lábios cor de rosa antigo
(passe o batom com a ponta dos dedos)
braços e colo precisam estar descobertos, parte da estória será contada por eles
quem ouve precisa perguntar, inclusive com os olhos e objetos. quando o ouvinte desliza a mão sobre algum objeto, persiga o gesto, entre no jogo
a narradora inventa o que quiser. os móveis não saem do lugar quando escutam uma mentira. lustres reviram os olhos mas é só isso.
é importante que, no meio das mentiras, se conte um segredo jamais revelado. quem escuta nunca saberá qual o segredo, mas o alívio de quem conta abre os ossos da bacia, eriça os cabelos, faz ondas no corpo
ali a voz fica mais suave
está proibido sussurrar ou rir com o canto da boca
pode ter chá, nunca pode ter café
olhar nos olhos é permitido desde que com juramento prévio de que será apenas olhar nos olhos e depois olhar nos olhos
em casa, com os olhos, ouvidos e boca em movimento, o tempo como testemunha, a cidade como fuga, os papéis como desculpa


escuta
o que o desejo despista
com palavras

segunda-feira, 4 de julho de 2016

certas coisas do desejo
vêm ao mundo
em panelas de ferro
que não deixam
esfriar

tempero que leva tempo
e apura já na boca
perto do fim

gosto
sem
quem o acompanhe