enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não eu canto /belchior
segunda-feira, 27 de junho de 2016
todas as mãos no bolso são as suas mãos
todos os nãos são os seus: em leque, em flor, e se abrem para mim feito um mostruário
todos os dias são os dias em que você não está
de noite todos os fantasmas colocam uma máscara do seu rosto e me fazem dormir. logo, meu monstruário também é você.
sua nuca é todas as nucas da rua.
todo pão é aquele não comido por sua boca.
todo pesar é meu por não cuidar da raiz que te alimenta
na fila do hospital, todos os doentes são você na desesperança e não são você nos detalhes.
toda gaze suja é seu sangue ralo
toda gaza seu paraíso particular
vem ver
todo portal que não te vê passar
toda tramela que não se vira ao movimento do seu corpo
todo meio fio que não te contém
a calha que não te escorre o galho que não verga
ao tentar seu sustento
calma, isto não pretende ser amor
só palavra
todos os nãos são os seus: em leque, em flor, e se abrem para mim feito um mostruário
todos os dias são os dias em que você não está
de noite todos os fantasmas colocam uma máscara do seu rosto e me fazem dormir. logo, meu monstruário também é você.
sua nuca é todas as nucas da rua.
todo pão é aquele não comido por sua boca.
todo pesar é meu por não cuidar da raiz que te alimenta
na fila do hospital, todos os doentes são você na desesperança e não são você nos detalhes.
toda gaze suja é seu sangue ralo
toda gaza seu paraíso particular
vem ver
todo portal que não te vê passar
toda tramela que não se vira ao movimento do seu corpo
todo meio fio que não te contém
a calha que não te escorre o galho que não verga
ao tentar seu sustento
calma, isto não pretende ser amor
só palavra
domingo, 26 de junho de 2016
o homem de fechar vestidos
o homem toca as costas da mulher ao menor sinal de cotovelos dobrados e
tecidos desunidos
lá vai a
mão hábil
o mal hábil
homem lábil
em pelo menos uma janela de cada hotel há um homem a fechar vestidos
com a audácia de deixar um botão
com a certeza de ser útil
com vontade de lutar contra o zíper ou reagir ao amanhecer que expulsa a mulher
com a beleza de ser totalmente dispensável para o ato de fechar vestidos
quarta-feira, 22 de junho de 2016
desço do avião no país vizinho e encontro o homem no desembarque, com um pequeno buquê de flores roxas na mão esquerda. flores viradas para baixo, desistentes. sabia que aquilo era muito, talvez o maior gesto desse amor curto e empenado.
o poema da Szymborska, “retornos”, onde eu incluía todos os homens do mundo, passava em letreiros, nas placas luminosas de cima dos táxis, na bunda dos velhos que insistiam em usar calças jeans com etiquetas chamativas, nos cardápios dos chineses, no ferro dos tampões boca de lobo das calçadas. “voltou. não disse nada. mas estava claro que teve algum desgosto. deitou-se vestido”.
o frio dava utilidade às mãos dadas, a promessa de calefação no apartamento dava imaginações. as mãos sempre procuravam meu rosto e descobriam nele restos úteis de um naufrágio antigo. “cobriu a cabeça com o cobertor. encolheu as pernas”.
as palavras estavam por toda a cidade, decerto também cumpriam sua sina dentro das luvas que dormiam na bolsa. eu nunca usaria aquelas luvas durante a viagem. ele usava meias dentro de casa e falava sobre a mãe como se ela ainda fosse viva, ignorando que eu sabia de sua morte. “existe - mas só como na barriga da mãe. na escuridão protetora, debaixo de sete peles”.
durante um quarto do tempo estive pensando – me trouxe aqui para nada. metade do tempo eu repetia para mim mesma – vim porque quis, e fazia chá. era verdade que eu não queria acordá-lo, nem perguntar nada sobre nenhum assunto. antigamente eu gostava muito de falar, agora ele estava ali exposto e convencido de que éramos alguma coisa que se escondia, tinha medo do sol, da gordura dos alimentos e das palavras que a digitação de deslizar deixava aparecer nas mensagens de texto.
“amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. por ora dorme, todo enroscado”. o poema fazia a ronda em torno de mais esse homem.
e eu era esse universo de pouco sol e perguntas.
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