desço do avião no país vizinho e encontro o homem no desembarque, com um pequeno buquê de flores roxas na mão esquerda. flores viradas para baixo, desistentes. sabia que aquilo era muito, talvez o maior gesto desse amor curto e empenado.
o poema da Szymborska, “retornos”, onde eu incluía todos os homens do mundo, passava em letreiros, nas placas luminosas de cima dos táxis, na bunda dos velhos que insistiam em usar calças jeans com etiquetas chamativas, nos cardápios dos chineses, no ferro dos tampões boca de lobo das calçadas. “voltou. não disse nada. mas estava claro que teve algum desgosto. deitou-se vestido”.
o frio dava utilidade às mãos dadas, a promessa de calefação no apartamento dava imaginações. as mãos sempre procuravam meu rosto e descobriam nele restos úteis de um naufrágio antigo. “cobriu a cabeça com o cobertor. encolheu as pernas”.
as palavras estavam por toda a cidade, decerto também cumpriam sua sina dentro das luvas que dormiam na bolsa. eu nunca usaria aquelas luvas durante a viagem. ele usava meias dentro de casa e falava sobre a mãe como se ela ainda fosse viva, ignorando que eu sabia de sua morte. “existe - mas só como na barriga da mãe. na escuridão protetora, debaixo de sete peles”.
durante um quarto do tempo estive pensando – me trouxe aqui para nada. metade do tempo eu repetia para mim mesma – vim porque quis, e fazia chá. era verdade que eu não queria acordá-lo, nem perguntar nada sobre nenhum assunto. antigamente eu gostava muito de falar, agora ele estava ali exposto e convencido de que éramos alguma coisa que se escondia, tinha medo do sol, da gordura dos alimentos e das palavras que a digitação de deslizar deixava aparecer nas mensagens de texto.
“amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. por ora dorme, todo enroscado”. o poema fazia a ronda em torno de mais esse homem.
e eu era esse universo de pouco sol e perguntas.
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