terça-feira, 16 de agosto de 2016

as águas do corpo
não conhecem
governo
estio
esteio
não respeitam
relevo
fim meio
sobemdescem
leito e peito

somem fogo afora
mato adentro

terça-feira, 2 de agosto de 2016

o que deu em você pra batizar
um filho com nome de czar
se a gente combinava de ter um cão
e colocar nele o nome
do apóstolo mais humilde
ter um jardim
onde só crescesse coisas sem rumo
você ri das mesmas coisas de antes
por que não acha engraçada
a vida grave que leva?
não se estranha
nem estranha os anos que passam correndo
entre nossas pernas
não pergunta por onde andei

e o que me fez mais branda

terça-feira, 26 de julho de 2016

quando alguém fala contigo
usando uma língua
que não é a sua
o corpo é quem responde
as mãos fazem as perguntas
sobre como deve ser a chuva naquele país
como se o país estivesse ali
nos sulcos da velha pele
na cintura todos os combates
e covardias
nas orelhas o futuro em forma de gritos infantis (pulos n'água, rayuelas)
entre os dedos do pé as tragédias que uma bota esconde, uma sola,
então solo firme a guardar o que não pode ser enterrado
nas pálpebras o caminho de árvores da primeira rua de sua vida
cosmos era o nome daquela flor amarela
a voz que vem da língua bolina um mapa, o que deve evitar a deriva
mas nas mãos do viajante estão prontos para zarpar dois compatriotas:
o amor e a dúvida

segunda-feira, 25 de julho de 2016

a literatura é toda a água em torno, apenas parte da boca nariz olhos a respirar e conseguir fôlego. o fôlego são todas as outras coisas do dia, as que evitam que a literatura tome todo o corpo. não seria má ideia, se fosse possível regressar.

terça-feira, 19 de julho de 2016

quinta-feira, 14 de julho de 2016

experimenta quebrar um dente
e passear a língua pelo buraco, rente
o que ela sente, enorme cratera
é cesura apenas
tímida fenda

não é que seja mentira da língua
a língua nunca mente
cava algo no oco
procura
retorna inútil e se deita
decidida a esquecer

ao voltar, pouco depois
descobre que deve guardar o vão
imaginar grandes terras
onde nada existe
tender ao sólido como salvação

a língua pensa que o dente é um continente

domingo, 10 de julho de 2016

do duvidar

é simples a feitura deste poema.
descanso o caderno no colo,
solto os cabelos
e fecho os olhos.
escrevo suas últimas palavras
com minha voz:
ainda não fazem sentido